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Angela Davis: Supremacistas saíram do armário

Por Jornal de Barcelos · · 2 min de leitura

Em sua décima visita ao Brasil, a ativista e escritora Angela Davis disse que os supremacistas brancos nos Estados Unidos não estão em ascensão, mas sim “saíram do armário”. A declaração foi feita durante entrevista no Rio de Janeiro, antes de sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorre no sábado (25), às 18h, no Sesc Caborê.

Davis, que é uma das principais referências do feminismo e do movimento negro, negou que o trumpismo represente o sentimento da maioria dos americanos. “As estatísticas indicam que mal um terço de toda a população o apoia”, afirmou, referindo-se ao governo Trump. Para ela, atribuir ao presidente a representação da maioria é falso.

A acadêmica Gina Dent, companheira de vida e de projetos de Davis, a acompanha na viagem. Juntas, elas escrevem um livro sobre jazz e defendem o fim do sistema carcerário. Davis explicou que a abolição das prisões não minimiza o sofrimento das vítimas de crimes violentos. “Muitas pessoas se identificam com a justiça transformativa porque ela presta atenção não apenas às necessidades da pessoa que foi vitimizada, mas também atende às formas pelas quais a própria sociedade gera as forças que empurram as pessoas a agir de maneiras violentas”, disse.

Ela classificou como perigoso o uso crescente de reconhecimento facial, inteligência artificial e algoritmos preditivos na segurança pública. “A base é o racismo estrutural. O policiamento preditivo é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas como estão”, afirmou. Davis também mencionou um encontro com presos em uma das piores prisões dos EUA, Pelican Bay, onde viu homens lendo o intelectual francês Michel Foucault. “Fiquei impressionada. Pensei, se ao menos eles tivessem reconhecido antes que esse tipo de experiência era possível, não estariam lá”, contou.

Questionada sobre o fracasso do movimento “Defund the Police” em obter apoio público duradouro, Davis atribuiu o resultado a intervenções conservadoras. “A trajetória foi interrompida, mas as bases foram lançadas”, disse, citando a resistência contra o ICE em lugares como Minnesota e Chicago como sinal de que o governo Trump não destruiu o desejo de criar uma democracia real.

Sobre a causa palestina, Davis afirmou que a tentativa de equiparar antissemitismo à solidariedade palestina é uma tática conservadora. “Nos EUA, pesquisas indicam que a maioria se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel. É lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa nova sensibilidade política emergisse”, declarou.

Davis também comentou a fraqueza do movimento progressista atual. “Não estamos organizados da forma que deveríamos. As possibilidades estão aí, mas não encontramos as formas organizacionais que nos permitirão dar expressão a esses sentimentos políticos”, analisou. Ela disse detestar ser retratada como um ícone. “Nenhuma grande virada política jamais veio de um presidente. As pessoas marcharam nas ruas e se organizaram. Continuo convencida de que é assim que o futuro do país vai se moldar”, concluiu.

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