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Brasil fecha acordos de HIV, mas segue sem PrEP principal

Por Jornal de Barcelos · · 3 min de leitura
Brasil fecha acordos de HIV, mas segue sem PrEP principal
Foto: Divulgação

O Brasil assinou dois acordos ligados a novas tecnologias de prevenção ao HIV, mas segue sem acesso ao lenacapavir, injetável semestral da Gilead considerado a principal ferramenta de profilaxia pré-exposição (PrEP) no mundo. As negociações com a farmacêutica não resultaram em redução de preço.

Nesta terça-feira (28), foi assinado um memorando entre a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a farmacêutica MSD Brasil, envolvendo o alimatravir (MK-8527). Na segunda (27), o ministro Alexandre Padilha (Saúde) anunciou um acordo entre a pasta e a ViiV Healthcare para a incorporação do cabotegravir ao SUS, após análise da Conitec (comissão de incorporação de novas tecnologias no SUS).

O alimatravir é candidato a PrEP oral mensal de uma nova classe de antirretrovirais, atualmente em estudos globais de fase 3 com participação de centros brasileiros. O texto do acordo condiciona qualquer ampliação de acesso a resultados positivos da fase 3 e à aprovação regulatória, sem garantir, por ora, preço ou fornecimento ao SUS.

“A Fiocruz e a MSD se propõem a cooperar na validação clínica dessa nova molécula e também discutir bases comerciais e tecnológicas para a nacionalização da sua produção”, disse o presidente da Fiocruz, Mario Moreira. O vice-presidente da MSD Brasil, Renan Ozyerli, chamou o memorando de “um passo importante para avaliar caminhos” que possam, no futuro, levar o medicamento à população brasileira e latino-americana.

Em sua fala, Padilha disse que o Brasil chegou a se colocar disposto a pagar pelo lenacapavir, da Gilead, até dez vezes o valor oferecido a países como Indonésia e Tailândia, mas a farmacêutica teria dito não ser possível oferecer o produto ao sistema público brasileiro por esse preço. O impasse tem gerado protestos diários contra a farmacêutica na conferência.

Para Renata Reis, diretora-executiva de Médicos Sem Fronteiras Brasil, é inaceitável que países que contribuíram para os ensaios clínicos que possibilitaram o desenvolvimento do medicamento fiquem agora de fora dos acordos e compra. “O lenacapavir deve estar disponível por um custo não superior a 40 dólares por pessoa por ano em todos os países de renda baixa e média”, afirma. Nos Estados Unidos, a farmacêutica comercializa o medicamento a US$ 28 mil ao ano por paciente.

Segundo a organização, se o impasse se mantiver, governos, incluindo o brasileiro, deveriam adotar medidas para a quebra do monopólio da empresa sobre o produto, como a concessão de licenças compulsórias para produtos patenteados. Questionado sobre essa possibilidade, Padilha não respondeu de forma direta, limitando-se a reforçar a recusa a “preços estratosféricos”.

Jarbas Barbosa, diretor da Opas (Organização Latino Americana de Saúde), afirmou que a entidade está negociando com a Gilead por meio de seu mecanismo regional de compras conjuntas. O objetivo seria viabilizar o acesso ao lenacapavir a um preço mais acessível para países da América Latina, incluindo Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Panamá.

Durante a mesa redonda, Jared Naeten, que representava a Gilead, relembrou a trajetória do lenacapavir desde os estudos Purpose até a aprovação simultânea em vários países. A meta do Fundo Global de Combate à Aids e do Pepfar é ter 600 mil pessoas em uso do medicamento até o fim do ano.

Os acordos de licenciamento voluntário cobrem 120 países, incluindo dois terços da América Latina, segundo ele. Em nota, a Gilead diz que as discussões sobre acesso na América Latina e no Caribe estão ocorrendo por múltiplas frentes. No Brasil, a Gilead diz que segue os processos regulatórios, de precificação e de reembolso estabelecidos no sistema de saúde brasileiro.

Jean Van Wyk, diretor médico da ViiV Healthcare, descreveu a corrida da farmacêutica para colocar o cabotegravir injetável no mercado. Em três meses após o primeiro registro, a ViiV fechou acordo com a Medicines Patent Pool, transferindo patente e know-how a três fabricantes de genéricos, que devem chegar ao mercado até 2028.

Para Veriano de Souza Terto Junior, vice-presidente da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), o impasse envolvendo o lenacapavir no Brasil é muito decepcionante. “A Gilead não tem nada a oferecer. Mais grave que a ausência atual do remédio, é a ausência de um plano [para o acesso a ele].”

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