Uma página que estava desaparecida do palimpsesto de Arquimedes, um manuscrito do século 10 com cópias dos tratados do cientista grego, foi encontrada em um museu na França. A descoberta foi feita por Victor Gysembergh, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França.
Arquimedes, físico, astrônomo, matemático e engenheiro, viveu entre 287 e 212 a.C. em Siracusa. Seu trabalho, incluindo o conhecido princípio de Arquimedes, sobreviveu até os dias de hoje.
Um palimpsesto é um pergaminho cujo texto original foi apagado para ser reutilizado, uma prática comum em uma época em que o material tinha alto valor.
Os tratados de Arquimedes foram copiados no século 10. Posteriormente, por volta dos séculos 12 e 13, foram apagados e transformados em um eucológio, um livro de orações para a liturgia, conforme explicou Gysembergh. Seu estudo foi publicado no dia 6 deste mês na revista alemã Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik.
A história deste palimpsesto, que é único no mundo, é incomum. O poeta e historiador dinamarquês Johan Ludvig Heiberg o descobriu no final do século 19. Em 1906, ele fotografou o documento página por página.
No entanto, o manuscrito desapareceu durante a Primeira Guerra Mundial. Ele ressurgiu em 1996 na França, em uma coleção privada, por ocasião de um leilão.
Nesse meio-tempo, três das 177 páginas do palimpsesto se perderam. Uma delas é a que Gysembergh localizou no Museu de Belas Artes de Blois, no centro da França. O pesquisador afirma que a descoberta ocorreu um pouco por acaso.
O interesse de Gysembergh por palimpsestos vem da possibilidade de redescobrir textos perdidos da Antiguidade. Um dia, comentando com colegas que parte da biblioteca dos reis da França estava preservada em Blois, ele sugeriu procurar por um palimpsesto na cidade.
A busca começou através do Arca, um catálogo online de manuscritos digitalizados. O pesquisador ficou surpreso ao encontrar um manuscrito grego e, mais ainda, um tratado científico do século 10.
Ele comparou a página encontrada em Blois com as fotografias tiradas em 1906, que estão disponíveis online pela Biblioteca Real da Dinamarca. A comparação mostrou que o estilo da escrita e cada letra eram idênticos, assim como uma figura geométrica no mesmo local. Era o tratado de Arquimedes sobre a esfera e o cilindro.
A página apresenta, de um lado, o texto da cópia, ainda muito visível, e do outro, um desenho mais recente. Esse desenho foi provavelmente adicionado no século 20 por um proprietário, na tentativa de aumentar o valor do documento.
Gysembergh espera realizar uma análise mais aprofundada no próximo ano para decifrar completamente o texto. A descoberta renovou a esperança de encontrar um dia as outras duas páginas que ainda faltam.
O pesquisador observa que, antes deste achado, não havia motivos para acreditar que as páginas perdidas poderiam ser recuperadas. Agora, ele espera que instituições ou colecionadores privados que possuam manuscritos similares verifiquem se não se tratam dos outros fragmentos desaparecidos.
